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Telecoteco

Abril 24, 2008 · 6 Comentários

Alessandra sacou da maletinha de neoprene preta seu novíssimo Macbook Air, ultrafino, compacto, um sonho de consumo, que ela comprou em 12 vezes sem juros na Fnac, e começou a teclar. Telectectec, tectactac, telectactec… Ninguém sabia que raios ela estava escrevendo. Nem ela, pra falar a verdade.

Mas isso pouco importava. O importante ali, na primeira fila de um desfile de biquínis para o inverno (!!), era mostrar-se ocupada enquanto o show não começava.
E Alessandra enganava bem no tecladinho de seu novo gadget. O corretor ortográfico encarregava-se de corrigir os “faser”, “analizar”, “paçarela”, “disfile” e “selulite” que Alessandra digitava, sempre com a pontinha dos dois indicadores.

Alessandra é uma das principais editoras de moda do país (ou produtora, stylist, ou qualquer um desses nomes chiques que inventam para profissões que não existem). Uma vencedora. Dá até orgulho de ver.

Filha de cearenses, Alessandra passou fome na infância e não conseguiu completar nem o primeiro grau. Passou a infância no mato, auxiliando os pais no corte de cana-de-açúcar. As roupas eram doadas. Vestia-se com o que tinha.
Aos 8 quase morreu de leishmaniose. E quando completou 15 engravidou do próprio irmão. Felizmente sofreu um aborto espontâneo logo nas primeiras semanas de gestação.
Deu sorte quando os pais a colocaram num pau de arara e a mandaram para São Paulo. “Pra ter um pouco mais de sorte na vida”. Chegou uma semana depois, toda arregaçada e suja. Ergueu a cabeça e foi bater na porta da igrejinha. Conseguiu um trabalho de faxineira na casa de uma bambambã da high.
Devagarzinho foi ganhando confiança da patroa. Até que começou a acompanhá-la nas lojas mais caras da cidade. Substitui arnica por um creme francês e leite de rosas deu lugar a uma loção comprada em Nova York.

Não ganha tanto dinheiro. Mas consegue fiado em tudo que é lugar – de restaurante a agência de turismo. Até o tratamento para candidíase ela tirou com desconto. Em troca, deu uma notinha (com foto colorida) dos patchworks feitos pela esposa do médico.

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