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Olhou para um lado, olhou para o outro. Olhou de novo. E mais uma vez. Queria certificar-se que ninguém mais estaria o observando. Tinha um pouco de vergonha daquilo. Quer dizer, adorava fazer. Divertia-se com os amigos. Mas também sabia que não era dos hobbies mais higiênicos.
Levantou a calça jeans, um número maior, até a altura do umbigo. Apertou firmemente o cinto de lona. Respirou fundo e olhou pra cima.
Com a cabeça para trás, boca ao céu, olhos semi-abertos por causa do sol forte, preparou-se. Forçou a garganta e cuspiu na direção do céu. Noventa graus exatos. O catarro, de cor ocre, girou, girou, até uma altura de 3 metros e meio a partir do seu nariz. A força centrífuga fazia do cuspe uma espécie de ameba voadora. Um fragmento de uma pintura de Pollock voando no céu, em quatro dimensões. O vento leve que vinha do sudeste foi suficiente para mudar a direção do catarro.
Em tempo, a brincadeira consistia no seguinte: Joca preparava a saliva, de preferência potencializada com aquela mais grossa vinda do pulmão e um pequeno gole de Coca-Cola para melhorar a sua consistência. Cabeça ao céu, cuspia para cima. O objetivo era vencer adversidades como o vento e capturar o cuspe com a boca. Nem sempre dava certo. E era uma farra. Ele e os amigos se torciam de rir quando alguém errava e, puff, uma meleca certeira no meio da testa.
Hoje ele estava sozinho. Os amigos viajaram por conta do feriado do Dia das Mães. Mas Joca resolveu sair à rua assim mesmo. Postou-se na calçada em frente a sua casa. Olhou para o céu. Tossiu. Forçou. E mandou bala. No exato fragmento de tempo em que a saliva parou no ar, quando terminou seu trajeto ascendente e ainda não foi puxada pela força da gravidade para baixo, um pit bull sem focinheira ataca Joca. Em menos de dois segundos, o bicho cravou os dentes na perna esquerda do moleque colocando-o no chão. E quando se preparava para atacar o pescoço, meio segundo depois, o cão é surpreendido com um catarro certeiro no focinho.
Joca foi salvo pelo próprio cuspe.
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Não era de hoje que Dudu nutria uma raiva quas inexplicável. A raiva vinha desde pequeno. Filho menor de uma família de três irmãos, Dudu tinha objeções até contra as atitudes da mãe. Desde que a família comprara um enorme cão da raça fila para proteger o sobrado em que morava, Dudu não podia mais sair de casa. Era ele se aproximar do portão para a dona Dileuza gritar lá da cozinha: não abre, Eduardo, não abre que a Tainá Cristina vai fugir (sim, o cão, na verdade uma cadela, recebera o delicado nome de Tainá Cristina). E assim passou parte da infância, vendo a vida acontecer do lado de lá das grades sem poder fazer nada.
Foi quando a mãe arrumou um emprego na prefeitura, Dudu então com 8 anos, que ela precisou de alguém para cuidar do moleque durante as tardes. Linda chegava às oito e saía por volta das sete da noite. E o melhor: Linda tinha um casal de filhos, Alan, de 6 anos, e Jade, da mesma idade de Dudu. As tardes perdidas do lado de cá do portão voltaram a ser animadas. Pulavam corda. Fazia esculturas em durepox. E brincavam com uma invejável coleção de Playmobil que Dudu herdara dos irmãos mais velhos – e que aumentava ainda mais a cada natal.
Tinha uma caixona recheada de bonecos, acessórios, castelos, mansões e até uma montanha que servia de cenário para a fictícia cidade de Playmocity (nome dado por eles mesmo!). Mas com o passar dos meses ele se deu conta que a sua coleção havia diminuído. E foi a mãe que fez cair a ficha: os filhos de Linda estavam levando embora, pouco a pouco, a preciosa coleção do filho. Mas sem poder acusar Alan e Jade dos pequenos furtos que cometiam diariamente, teve que esperar até conseguir achar motivo para mandar Linda embora. E quando descobriu que ela pegava escondido os vestidos de gala de Dileuza e na semana seguinte mostrava à patroa fotos do casamento da irmã, do batizado do filho da vizinha, ou do churrasco da paróquia, sempre com os vestidos “emprestados”, Dileuza viu que era hora de demitir Linda.
Apesar de tudo, Dudu ficou triste. Suas tardes voltaram a ser solitárias. Mas o tempo passou, Dudu cresceu, e virou um rapaz até que normalzinho. Mas aquela raiva da infância ainda não havia sumido – pelo contrário, estava muito viva sempre que lembrava dos filhos de Linda. Ficou feliz em saber que Jade havia engravidado aos 12 anos, de um vagabundo qualquer, e que criava a criança na maior dificuldade lá no sertão, próximo à Serra da Viração. Torceu-se de tanto rir quando descobriu que Alan virou pintor de quadros de motel. Um mais feio que o outro. Linda, coitada, morrera a pauladas pelo ex-marido, sempre chegado numa cachaça e num fumo.
Dudu está com 26 anos. Formou-se em técnica de informática e trabalha num cybercafé ali na pracinha. Ainda mora com a mãe. Nas horas vagas, tenta se livrar do que sobrou da sua coleção de Playmobil vendendo-a no Mercado Livre. Não consegue. Até pensa em deixá-los na porta da casa de Jade. Ela ficou com mais da metade da coleção. E ele precisa de dinheiro pra comprar um mouse sem fio.
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Assim não vai dar, guri. Escolhe: ou você se concentra na bola ou você se concentra no seu umbigo. Estamos perdendo por três gols e falta apenas 10 minutos pro jogo acabar. Pára de olhar para baixo e presta atenção nessa bola, porra.
Não adiantava. Sérgio, o guri em questão, tava um com um problemão daqueles. Encasquetou que seu umbigo ia abrir e desde então, cerca de umas três semanas pra cá, a única coisa que fazia era olhar para o tal buraco. Cutucava. Mexia. Molhava o dedo de saliva e massageava o orifício. Apertava. Enfim, tentava achar algum sinal de que o nó, dado 9 anos atrás pelo Doutor Torres numa maternidade de Jundiaí, no interior de São Paulo, ia estourar de vez. E como prevenir tal tragédia?
Serginho tinha uma imaginação de fazer inveja. Criativa teorias incríveis de como o desastre ocorreria: Vou virar do avesso? Vou esvaziar até morrer? Vou voar pelos ares como quando se solta uma bexiga sem dar um nó bem dado? Será que vai sair sangue ou coco? Vou apanhar da mãe se chegar em casa todo sujo.
O jogo acabou e seu time perdeu por 4 a 2. Levou esporro dos amigos mas nem ligou. E tampouco dividiu aquela angustia com eles. Ninguém vai entender mesmo, pensou. E seguiu no caminho de volta pra casa vasculhando com o dedo indicador algum sinal de perigo iminente. Doía. Mas doía, é claro, de tanto o moleque cutucar. Já começava, inclusive, a fazer um feridinha. Desesperou. Apressou o passo, ansioso por chegar logo em casa e, finalmente, contar pra mãe a tragédia anunciada. Andava rápido ao mesmo tempo que seguia fuçando – com os olhos e o dedo – o próprio umbigo.
Atravessou a rua distraído e foi pego em cheio por uma caminhão da Sadia. Morreu na hora. Com metade do indicador esquerdo cravado dentro dele mesmo.
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