
Alcides acordou meio febril. Suava, gemia e jogava pra longe as cobertas que repousavam sobre a cama. A mão esquerda doía, mal podia fechá-la. Sem dar muita bola, num salto foi da cama pro banheiro lavar o rosto e escovar os dentes.
Na sala, sentou ao lado da mãe, uma católica fervorosa e dedicadíssima ao único filho. Ela preparou um pão francês fatiado com a mão em pequenos quadradinhos e sobre eles passou a faca com manteiga e requeijão. No momento em que Alcides levava à boca a primeira fatia do que convencionou chamar de “pão de ratinho”, a mãe percebeu o inchaço.
Na palma, exatamente no centro da mão, um vermelhidão pulsava ao redor de uma ferida do tamanho de um moeda de pouco valor.
- O que aconteceu aí, Alcides?
- Sei lá, mãe, acordei assim, com dor, suando e meio tonto.
- Deixa eu ver. Daqui a mão. Deixa eu ver.
- É a chaga! É a chaga!
Alcides entendeu bulhufas do que ela dizia, e pra falar a verdade nem deu bola. Continuou comendo seu pãozinho e tomando o café com leite. Mas bastou uns 20 minutos e o padre chegou. A pedido da mãe. Veio correndo. Trancou a igreja, colocou a batina e veio tentar entender o que se passava na pobre mão do pobre Alcides. E de fato eles era pobres. Não paupérrimos, miseráveis. Mas viviam no aperto. O pai ele nunca conheceu. A mãe também era a única filha de um casal de lavradores do interior do estado. Morreram jovens. Ele de febre tifóide. Ela durante o parto daquela que seria a irmã mais nova da mãe. Viviam com alguns trocados que ela ganhava costurando pra fora e outro pequeno montante resultado do terreno herdado pelos avós.
- É a chaga. Milagre. É a chaga, suspirou o padre.
- Que raios de chaga, mãe?
De acordo com ela e com padre, Alcides havia sido escolhido como um legítimo mensageiro de Cristo. E a indefesa feridinha na mão, para desespero do moleque, era sinal de que a partir daquele instante sua vida mudaria.
No dia seguinte já havia uma longa fila na porta da casa. Pessoas muito pobres, muito católicas e bastante desesperadas a fim de resolver algum problema que pelos meios normais não conseguiam. Enfim, todas estavam em busca de um milagre.
E o pequeno Alcides, e sua pequena chaga, da noite pro dia, tornaram-se santos.
- Tenho uma íngua aqui, ó, que me impede de trabalhar já faz tempo.
E sempre sobre a supervisão da mãe e do padre, Alcides esticava a mão doente, repousava sobre o local indicado, e garantiam (a mãe e o padre, porque Alcides não estava nem aí) que a partir daquele momento a íngua desapareceria.
Foi assim durante exatos seis dias. Diabéticos voltaram a se deliciar com doces. Paralíticos ensaiavam passos na calçada. Cegos afirmavam ter recuperado a visão. E até as solteiras comemoravam o encontro de um amor.
No sétimo dia, que era um domingo, a mãe autorizou que Alcides saísse para brincar com os amigos. E não deu outra. Num instante o moleque estava na rua. Com picolé na mão, lambuzava-se sem culpa.
Eis que lembrou do domingo passado. Quando comeu outro picolé mas teve que jogar fora na metade porque uma abelha havia picado a palma da sua mão.