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Pranto

Abril 29, 2008 · 2 Comentários

Dante só conseguia chorar na frente de estranhos.
Não tinha jeito. Por mais que ele tentasse, tentasse, não saía uma lágrima sequer daquele rosto. Coçava, mexia os olhos, cutucava, apertava, mas não tinha jeito.

O choro era um privilégio dos distantes.

Foi assim durante anos. Na infância, quando não conseguia o que queria, segurava o berreiro na frente da mãe para, em seguida, debulhar-se em lágrimas na frente do porteiro do prédio. Seu Raul, um senhor de mais de 80 anos, ouvia pacientemente as reclamações do pequeno para, em seguida, dar o seu parecer sobre o pranto.
Foi assim desde sempre. No colégio, na faculdade, no primeiro emprego e na frente da primeira namorada.

As namoradas, é bom frisar, duravam muito pouco. O suficiente para ele não criar intimidade e poder abrir o berreiro na frente delas sem medo.

E chorava ferozmente. Com todos os tiques e truques que tinha direito. Soluçava horrores, nariz escorria, falta de ar, cabeça baixa.

Até o dia em que conheceu uma menina chamada Karolina. Moça simples, do interior, mas outro poço de problemas. No caso dela, o choro era um privilégio do espelho. Raramente Karola derrubava uma lágrima na frente de outra pessoa. Há anos vivia com um choro entalado lá no fundo do peito. Nem sempre tomava as decisões certas. Parece até que gostava de insistir no erro. Tudo para chegar no fim do dia, e trancada no banheiro de casa, derrubar-se em lágrimas. Gostava daquilo. E ele gostava daquilo nela.

Dante descobrira, finalmente, alguém muito parecido com ele. Alguém que tinha medo de viver o mundo, com toda a sua loucura, incerteza e falta de sentido. Em comum, a dor não dividida dos dois.

Quando ambos completaram 19 anos, foram para cama pela primeira vez.
E antes de gozarem, choraram. Choraram como nunca. Molharam um o corpo do outro com as lágrimas derramadas.

E ficaram ali durante dias, deitados, ele sobre ela, chorando, chorando, chorando.

Quando ambos secaram, alguns quilos mais magros, olheiras visíveis, levantaram-se, tomaram banho.

Pela primeira vez os dois sorriram  e não tiveram vontade de chorar.

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Mãe

Abril 22, 2008 · 1 Comentário



Debaixo do chuveiro, porta trancada, Ronaldo fechava os olhos e se masturbava. Lambuzava as mãos de sabonete, água caindo no rosto, e brincava com o corpo. Todo o santo dia.

Pensava nas amigas do colégio, na faxineira, nas primas… No dia em que completou 15 anos começou a pensar na própria mãe. Foi assim, sem mais nem menos. Dali em diante, toda a sua energia dispensada era para ela. Passou a inventar historinhas para dormir ao seu lado. De camisola longa, sem roupa íntima, esperava ela pegar no sono para começar a brincar.

Meses depois assumiram o caso. E até hoje ninguém entende o que é o verdadeiro amor de mãe.

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Guisado

Abril 11, 2008 · 2 Comentários

Baixou o elástico da puída calça de moletom cinza. As pernas tremeram. Olhou para baixo, de soslaio, e respirou aliviado. Seu pinto ainda estava lá. Com calma e zelo, pressionou levemente o prepúcio e puxou-o em direção ao próprio corpo. Ardia um bocado. Um líquido transparente, espesso e gosmento lhe causou certo espanto. Um forte odor subiu-lhe às narinas. Resolveu se lavar.

O telejornal anunciava as últimas do governo quando os pais de Max chegaram em casa. Um beijinho na mãe. Um beijinho no pai. E vruuuummm para o quarto. O pau ainda queimava. Segundo banho do dia.

— Filhoooo, olha a janta — gritou a mãe da cozinha.

— Jantar, mãe, é jantar, e não janta — corrigiu.

Guisado. Coca-cola. Guisado. Arroz. Coca-cola. Polenta. Blurp.

— Come devagar, seu idiota — irritou-se o pai.

Ao lado da cozinha, num cubículo, sobre um beliche cor-de-rosa, Mirleide suspirava com os românticos e açucarados contos da coleção Sabrina.

— Pode tirar a mesa — ordenou a mãe.

Mirleide tinha 18 anos. Trabalhava na casa de Max desde os 15 e perdera a virgindade naquela tarde. Max tinha 42. E síndrome de Down.

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Chaga

Abril 9, 2008 · 1 Comentário

Alcides acordou meio febril. Suava, gemia e jogava pra longe as cobertas que repousavam sobre a cama. A mão esquerda doía, mal podia fechá-la. Sem dar muita bola, num salto foi da cama pro banheiro lavar o rosto e escovar os dentes.

Na sala, sentou ao lado da mãe, uma católica fervorosa e dedicadíssima ao único filho. Ela preparou um pão francês fatiado com a mão em pequenos quadradinhos e sobre eles passou a faca com manteiga e requeijão. No momento em que Alcides levava à boca a primeira fatia do que convencionou chamar de “pão de ratinho”, a mãe percebeu o inchaço.

Na palma, exatamente no centro da mão, um vermelhidão pulsava ao redor de uma ferida do tamanho de um moeda de pouco valor.

- O que aconteceu aí, Alcides?

- Sei lá, mãe, acordei assim, com dor, suando e meio tonto.

- Deixa eu ver. Daqui a mão. Deixa eu ver.

- É a chaga! É a chaga!

Alcides entendeu bulhufas do que ela dizia, e pra falar a verdade nem deu bola. Continuou comendo seu pãozinho e tomando o café com leite. Mas bastou uns 20 minutos e o padre chegou. A pedido da mãe. Veio correndo. Trancou a igreja, colocou a batina e veio tentar entender o que se passava na pobre mão do pobre Alcides. E de fato eles era pobres. Não paupérrimos, miseráveis. Mas viviam no aperto. O pai ele nunca conheceu. A mãe também era a única filha de um casal de lavradores do interior do estado. Morreram jovens. Ele de febre tifóide. Ela durante o parto daquela que seria a irmã mais nova da mãe. Viviam com alguns trocados que ela ganhava costurando pra fora e outro pequeno montante resultado do terreno herdado pelos avós.

- É a chaga. Milagre. É a chaga, suspirou o padre.

- Que raios de chaga, mãe?

De acordo com ela e com padre, Alcides havia sido escolhido como um legítimo mensageiro de Cristo. E a indefesa feridinha na mão, para desespero do moleque, era sinal de que a partir daquele instante sua vida mudaria.

No dia seguinte já havia uma longa fila na porta da casa. Pessoas muito pobres, muito católicas e bastante desesperadas a fim de resolver algum problema que pelos meios normais não conseguiam. Enfim, todas estavam em busca de um milagre.

E o pequeno Alcides, e sua pequena chaga, da noite pro dia, tornaram-se santos.

- Tenho uma íngua aqui, ó, que me impede de trabalhar já faz tempo.

E sempre sobre a supervisão da mãe e do padre, Alcides esticava a mão doente, repousava sobre o local indicado, e garantiam (a mãe e o padre, porque Alcides não estava nem aí) que a partir daquele momento a íngua desapareceria.

Foi assim durante exatos seis dias. Diabéticos voltaram a se deliciar com doces. Paralíticos ensaiavam passos na calçada. Cegos afirmavam ter recuperado a visão. E até as solteiras comemoravam o encontro de um amor.

No sétimo dia, que era um domingo, a mãe autorizou que Alcides saísse para brincar com os amigos. E não deu outra. Num instante o moleque estava na rua. Com picolé na mão, lambuzava-se sem culpa.

Eis que lembrou do domingo passado. Quando comeu outro picolé mas teve que jogar fora na metade porque uma abelha havia picado a palma da sua mão.

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