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O namoradinho

Abril 17, 2008 · 4 Comentários

Como de praxe, Daniele desceu do metrô dez pras nove da manhã em direção ao trabalho. Estava feliz, de saia plisada e sapatinhos de princesa. Há duas semanas havia terminado um conturbado namoro de quase três anos e desfrutava uma rara leveza na alma. De namoradinho novo, era só beijinho pra cá, beijinho pra lá. Um chamego que só vendo. Havia passado a noite na casa dele.

Percival era o novo namorado. Língua presa, ou fanho, tanto faz, não conseguia pronunciar a letra D.

– Sai do computador e vem pra cama, Percivaaaaaaaal.

– To sainuuuu, dizia ele, já to sainuuuu.

– Vem por cima, Percival, assim, assim.

– Eu te amo, Percival, eu te amo. Você mudou minha vida da água pro vinho, da noite pro dia. Sou muito feliz ao teu lado. Feliz como nunca fui antes.

Adorava seus cabelos, suas tatuagens. Adorava toda aquela tempestade em forma de abraços, beijos e mordidinhas.

Em exatos quinze dias de namorico decidiram o casamento. Planejaram tudo. Festa, vestido, alianças, lua-de-mel e até um casal de bebês. Daniele queria engravidar.

Percival topou. Ela não se cansava de contar pras amigas, anunciar aos quatro ventos a guinada que a sua vida deu em tão pouco tempo. Da água pro vinho. Da noite pro dia.

Planejaram o fim do ano na casa dos pais de Daniele, no interior do Mato Grosso. Anunciariam, então, o noivado e – se Deus quiser! Se Deus quiser! – a chegada do primeiro bebê.

No caminho do trem até a porta do prédio onde trabalhava, no centro de Belo Horizonte, Daniele lembrou por um breve momento do antigo namorado. Algumas coisas boas que passaram juntos. Deu um sorriso sincero. E em seguida ouviu a voz dele.

– Dani, Daaani.

Olhou para trás. E antes de falar qualquer coisa, ainda que não tivesse nada pra falar, caiu no chão com dois tiros no rosto.

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