Eu estava preso naquele maldito acampamento. Ainda não consigo entender onde, raios, eu estava com a cabeça quando topei a idéia de passar dez dias e dez noites no meio do mato. Estávamos em janeiro. Um calor de quase 40 graus. Os mosquitos, e botucas, e abelhas, e o raio que o parta desses incômodos insetos que rodeavam a gente, e as nossas barracas, e as nossas comidas, e bebidas e nossos banheiros químicos que em poucas horas já fedia a merda e a mijo, incomodavam mais do que aquele angustiante sol de 40 graus.
Mas isso não era o pior. O pior, e eu digo com propriedade, porque eu estava lá durante todo o tempo, o pior era a cara daquela molecada. Não sei ao certo quantos eram e que cara, de fato, eles tinham ou fingiam que tinham. Mas me dava uma raiva danada. Quando mamãe falou que era um acampamento de meninas e meninos, todos jovens, pouco dinheiro, sem muita esperança, ela não me disse quantos meninos e meninas eram ao certo. E eu também não fiz muita questão de contar. Eram todos meio parecidos. Umas carinhas meio iguais, sujinhos, ranhentos. Tinham uns 11, 12, no máximo uns 13 anos. Mas parecia menos. Eram pobres, né. Acho que não tinham muito o que comer. E eu só fui porque mamãe fez aquela cara, aquela maldita cara que não funcionou quando meu pai largou ela, mas comigo sempre funciona. Fiquei com uma pena danada dela. E não consegui dizer “não, mãe, eu não vou te ajudar nessa porra de acampamento, no meio do mato, porque eu planejei passar a virada de ano no nordeste, com meus amigos. Não, mãe, eu não vou estragar com meu fim de ano porque quem escolheu essa porra de vida foi você, e eu, sinceramente, estou cagando pra essa criançada. Pro passado, pro presente ou pro futuro delas.” De modo que eu fiz um bico discreto, mordi por um brevíssimo segundo meus lábios, e falei: “vamos, mamãe, estou com você nessa”.
Mas agora também não adianta eu ficar reclamando. Já estou aqui há uma semana. Falta pouco pra terminar. Na igreja lá do bairro dizem que o que eu fiz chama-se compaixão. Na escola que estudei, a professora diria que ganhei um ponto no céu. Foda-se o céu. Eu quero meus pontos enquanto eu estiver vivo, pra poder usá-los do jeito que eu bem entender. Eu só vim pra cá porque não consegui dizer não para mamãe. Afinal, ela não é nenhuma garotinha. Tem quase 80 anos e dedica-se dia e noite a essas crianças. Não deve ser fácil pra ela ficar vendo um bando de meninos e meninas carecas, vomitando a bilis por causa de tanta quimioterapia, e magrinhos que até dói. E mesmo assim, volta e meio, eu pegava um grupinho de meninas planejando seus futuros, suas vidas em família, cheias de filho e vida. Elas me dão nos nervos. Se eu pudesse, mataria uma por uma dessas crianças. Mas nem me preocupo. No estágio que estão, nenhuma delas sobreviverá mais do que alguns meses. E elas ainda acham que um dia crescerão. Ainda bem que ainda tenho três dias nesse acampamento. Pensando bem, acho posso me divertir.
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Acampamento
Abril 25, 2008 · 3 Comentários
Categorias: Contos
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