Faz um calor infernal aqui na Ilha. Uns 40 graus a sombra, no mínimo.
O vento quase não sopra, e o asfalto velho e cinzento parece potencializar ainda mais a temperatura.
Cheguei há 6 dias. E até agora, o máximo que consegui realizar foi um passeio pela orla e trocar alguns dólares.
- Hola, chiquito, me dizem as putas às beira da estrada, o mar quebrando doutro lado do acostamento.
Não estou interessado em sexo. Há tempos deixei de lado o meu interesse em qualquer relação que envolva outra pessoa que não eu – e só eu. Simplesmente não me apetece mais. Não há magia, sedução ou tesão que me endureça a ponto de baixar as calças e desperdiçar qualquer tipo de energia. Estou bem assim. Muito bem assim, acredite.
Minha viagem não foi planejada. E quando decidi, tampouco pensei nessa possibilidade. Ainda que todos meus amigos me dissessem que “assim que você chegar, vais ver, a coisa muda de figura”.
Não mudou. Estou tranqüilo, posso garantir. Trouxe não mais do que três mudas de roupa: três calças, três camisetas, três cuecas e três meias. Sapato eu trouxe um único par. Além, é claro, do meu chinelo. Pra falar a verdade ainda não tirei os sapatos da mala. Chinelo e camiseta sobre o ombro. É assim que passei meus últimos seis dias aqui na Ilha.
Dois dólares são suficientes para eu comer e dormir aqui. Custa muito pouco a vida na Ilha. Mas pretendo voltar logo. Não agüentaria tamanho calor por muito tempo.
Logo mais devo encontrar Pedro, um escritor e amigo de longa data. Esse, sim, louco por sexo, bebida e histórias grotescas. Mas é um gentleman, você precisa ver. Acho que essas bizarrices, vou te contar, ele reserva para a ficção. Nunca vi, de fato, Pedro vivendo toda aquela imundice que ele relata em seus livros. Um sujeito meio recatado, pensando melhor. Sempre com sua camisa branca de mangas curtas, dois botões abertos, calça de sarja velha, chinelos de couro e um legítimo panamá no cocuruto.
Combinamos de tomar um conhaque no fim do dia. Não me pergunte o motivo. Faz um calor de 40 graus e não há motivos pra tomarmos conhaque. Mas foi isso que combinamos, e eu sou um homem de palavra. E Pedro também.
Nos conhecemos há uns 30, 35 anos. Eu não era ninguém. Pedro muito menos. Eu vivia de vender carretéis artesanais de madeira para pesca no centro de São Paulo. Sim, a minha loja era no centro de São Paulo. Não, ninguém pesca no centro de São Paulo. Pedro, uns 10 anos mais velho do que eu, acabara de voltar do Projeto Rondon, ex-comparsa de Che, fugido de Vallegrande, caiu na cidade grande por acaso. Ficamos amigos no ato. Quando anoiteceu já estávamos bêbados de conhaque na padaria do Francieldo. Acho que é por isso que sempre voltamos a tomar conhaque quando nos reencontramos. Eu tinha 20 anos, no máximo. Pedro uns 30. Mas ambos idealistas. Não podíamos parar jamais. Nossas cabeças eram duas usinas de idéias. Ferviam. Nunca colocamos em prática nenhuma dessas idéias, confesso. Mas gastamos um bom tempo da nossa juventude traçando o melhor plano para concretizá-las.
Pedro casou três vezes, espalhou cinco filhos por aí, e hoje vive sozinho e feliz da vida aqui na Ilha. Não ganha muito, mas se diverte um bocado com o pouco que lhe é dado de vendas e direitos autorais.
Eu fui casado durante duas décadas. Me separei há três. Tenho duas filhas. Uma de 18, Marlise, e outra de 15, Greice. Não posso dizer que sou um infeliz. Não, não sou.
Mas desde que me separei da Judite não me apetece qualquer nova relação. Melhor assim. Vejo o dia chegar e ir embora sem ninguém. E é exatamente isso que eu quero.
Não quero que ninguém chore por mim. Pelo contrário, me esforço cada vez mais para que as pessoas me esqueçam ainda em vida.
Pedro sabe disso. E me entende. Ele disse que vai escrever um livro com a minha história. Disse até que pode virar filme. Eu vou esperar. Sempre espero as coisas. Mas prefiro que ninguém espere nada de mim. Melhor assim. É mais seguro.



5 respostas Até agora ↓
Junior // Maio 7, 2008 às 12:15 pm
“Não há magia, sedução ou tesão que me endureça a ponto de baixar as calças e desperdiçar qualquer tipo de energia. ”
Adorei isso. Minha meta na vida, juro.
fabi // Maio 7, 2008 às 5:53 pm
Essa não é a minha meta, mas amei o conto mesmo assim.
rimoreno // Maio 7, 2008 às 8:40 pm
Fabi, voce anda sumida. Pq?
Junior, a tua meta é o que afinal: desperdicar energia sempre que puder ou poupá-la ao máximo?
beijos
Dani // Maio 9, 2008 às 12:26 am
Li alguns, curti muito. Engraçado…
edison // Maio 9, 2008 às 10:26 am
Cara, muito bom o blog. Abraço.