Entradas do Maio 2008

Aviso

Maio 14, 2008 · 3 Comentários

Por motivo de força maior, não haverá novas postagens nesta semana.

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Improbabilidades

Maio 9, 2008 · 3 Comentários

Olhou para um lado, olhou para o outro. Olhou de novo. E mais uma vez. Queria certificar-se que ninguém mais estaria o observando. Tinha um pouco de vergonha daquilo. Quer dizer, adorava fazer. Divertia-se com os amigos. Mas também sabia que não era dos hobbies mais higiênicos.

Levantou a calça jeans, um número maior, até a altura do umbigo. Apertou firmemente o cinto de lona. Respirou fundo e olhou pra cima.

Com a cabeça para trás, boca ao céu, olhos semi-abertos por causa do sol forte, preparou-se. Forçou a garganta e cuspiu na direção do céu. Noventa graus exatos. O catarro, de cor ocre, girou, girou, até uma altura de 3 metros e meio a partir do seu nariz. A força centrífuga fazia do cuspe uma espécie de ameba voadora. Um fragmento de uma pintura de Pollock voando no céu, em quatro dimensões. O vento leve que vinha do sudeste foi suficiente para mudar a direção do catarro.

Em tempo, a brincadeira consistia no seguinte: Joca preparava a saliva, de preferência potencializada com aquela mais grossa vinda do pulmão e um pequeno gole de Coca-Cola para melhorar a sua consistência. Cabeça ao céu, cuspia para cima. O objetivo era vencer adversidades como o vento e capturar o cuspe com a boca. Nem sempre dava certo. E era uma farra. Ele e os amigos se torciam de rir quando alguém errava e, puff, uma meleca certeira no meio da testa.

Hoje ele estava sozinho. Os amigos viajaram por conta do feriado do Dia das Mães. Mas Joca resolveu sair à rua assim mesmo. Postou-se na calçada em frente a sua casa. Olhou para o céu. Tossiu. Forçou. E mandou bala. No exato fragmento de tempo em que a saliva parou no ar, quando terminou seu trajeto ascendente e ainda não foi puxada pela força da gravidade para baixo, um pit bull sem focinheira ataca Joca. Em menos de dois segundos, o bicho cravou os dentes na perna esquerda do moleque colocando-o no chão. E quando se preparava para atacar o pescoço, meio segundo depois, o cão é surpreendido com um catarro certeiro no focinho.

Joca foi salvo pelo próprio cuspe.

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Não espere nada

Maio 7, 2008 · 5 Comentários

Faz um calor infernal aqui na Ilha. Uns 40 graus a sombra, no mínimo.
O vento quase não sopra, e o asfalto velho e cinzento parece potencializar ainda mais a temperatura.
Cheguei há 6 dias. E até agora, o máximo que consegui realizar foi um passeio pela orla e trocar alguns dólares.

- Hola, chiquito, me dizem as putas às beira da estrada, o mar quebrando doutro lado do acostamento.

Não estou interessado em sexo. Há tempos deixei de lado o meu interesse em qualquer relação que envolva outra pessoa que não eu – e só eu. Simplesmente não me apetece mais. Não há magia, sedução ou tesão que me endureça a ponto de baixar as calças e desperdiçar qualquer tipo de energia. Estou bem assim. Muito bem assim, acredite.

Minha viagem não foi planejada. E quando decidi, tampouco pensei nessa possibilidade. Ainda que todos meus amigos me dissessem que “assim que você chegar, vais ver, a coisa muda de figura”.
Não mudou. Estou tranqüilo, posso garantir. Trouxe não mais do que três mudas de roupa: três calças, três camisetas, três cuecas e três meias. Sapato eu trouxe um único par. Além, é claro, do meu chinelo. Pra falar a verdade ainda não tirei os sapatos da mala. Chinelo e camiseta sobre o ombro. É assim que passei meus últimos seis dias aqui na Ilha.

Dois dólares são suficientes para eu comer e dormir aqui. Custa muito pouco a vida na Ilha. Mas pretendo voltar logo. Não agüentaria tamanho calor por muito tempo.
Logo mais devo encontrar Pedro, um escritor e amigo de longa data. Esse, sim, louco por sexo, bebida e histórias grotescas. Mas é um gentleman, você precisa ver. Acho que essas bizarrices, vou te contar, ele reserva para a ficção. Nunca vi, de fato, Pedro vivendo toda aquela imundice que ele relata em seus livros. Um sujeito meio recatado, pensando melhor. Sempre com sua camisa branca de mangas curtas, dois botões abertos, calça de sarja velha, chinelos de couro e um legítimo panamá no cocuruto.

Combinamos de tomar um conhaque no fim do dia. Não me pergunte o motivo. Faz um calor de 40 graus e não há motivos pra tomarmos conhaque. Mas foi isso que combinamos, e eu sou um homem de palavra. E Pedro também.

Nos conhecemos há uns 30, 35 anos. Eu não era ninguém. Pedro muito menos. Eu vivia de vender carretéis artesanais de madeira para pesca no centro de São Paulo. Sim, a minha loja era no centro de São Paulo. Não, ninguém pesca no centro de São Paulo. Pedro, uns 10 anos mais velho do que eu, acabara de voltar do Projeto Rondon, ex-comparsa de Che, fugido de Vallegrande, caiu na cidade grande por acaso. Ficamos amigos no ato. Quando anoiteceu já estávamos bêbados de conhaque na padaria do Francieldo. Acho que é por isso que sempre voltamos a tomar conhaque quando nos reencontramos. Eu tinha 20 anos, no máximo. Pedro uns 30. Mas ambos idealistas. Não podíamos parar jamais. Nossas cabeças eram duas usinas de idéias. Ferviam. Nunca colocamos em prática nenhuma dessas idéias, confesso. Mas gastamos um bom tempo da nossa juventude traçando o melhor plano para concretizá-las.

Pedro casou três vezes, espalhou cinco filhos por aí, e hoje vive sozinho e feliz da vida aqui na Ilha. Não ganha muito, mas se diverte um bocado com o pouco que lhe é dado de vendas e direitos autorais.

Eu fui casado durante duas décadas. Me separei há três. Tenho duas filhas. Uma de 18, Marlise, e outra de 15, Greice. Não posso dizer que sou um infeliz. Não, não sou.
Mas desde que me separei da Judite não me apetece qualquer nova relação. Melhor assim. Vejo o dia chegar e ir embora sem ninguém. E é exatamente isso que eu quero.
Não quero que ninguém chore por mim. Pelo contrário, me esforço cada vez mais para que as pessoas me esqueçam ainda em vida.
Pedro sabe disso. E me entende. Ele disse que vai escrever um livro com a minha história. Disse até que pode virar filme. Eu vou esperar. Sempre espero as coisas. Mas prefiro que ninguém espere nada de mim. Melhor assim. É mais seguro.

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Promete?

Maio 6, 2008 · 2 Comentários

- Você não pode ir embora agora, sabe. Já tá tarde, bebeu demais, está supercansada. Fica dormindo aqui.

- Não posso. Cê sabe, preciso voltar.

- Toma mais uma taça de vinho, pelo menos.

- Já tá tarde. Quase uma hora. Imagina só. Preciso ir. Mesmo.

- Mais um pouquinho, vai. Um cigarrinho. Aí você vai.

- Tá bom. Eu fumo com você esse e aí eu vou.

- E amanhã, você volta?

- Preciso ver, né. Cê sabe, não é assim. Tem todo um esquema. Lá em casa é dureza.

- Volta?

- Eu quero. Cê sabe que eu quero. Mas não posso garantir.

- Não quero garantias. Quero você aqui, na minha cama, nua.

- Você só pensa em sexo, né?

- Só. E você?

- Eu também.

- Então volta?

- Só sexo, promete?

- Prometo.

- Volto.

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