Deitou-se de bruço, braço entre as pernas, rosto enterrado no travesseiro, e chorou. Manequinho ardia em longo e soluçado pranto. A dor era tanta – e tão legítima – que vez ou outra chegava a lhe roubar o ar. As narinas entupidas, o rosto inchado, e ele repetia, numa espécie de cantochão:
– Quero morrer. Quero dormir e não acordar nunca mais. Por favor, Deus, aceite esse meu último pedido.
Como morrer não é tão fácil como parece, na manhã seguinte Manequinho acordou. Abriu um olho, depois o outro, e tão logo recuperou a consciência, pôs-se na mesma posição da noite anterior e voltou a berrar. Ficou assim por cerca de meia hora, até que se lembrou da prova na escola.
Era final do terceiro bimestre e ele não poderia, de maneira alguma, perder aquela prova. Pior do que morrer dormindo seria reprovar de ano.
Naquela mesma noite, já de pijama e banho tomado, o garoto dormiu e esqueceu pra sempre que havia algo dentro do peito que (ainda) doía.



2 respostas Até agora ↓
Alberto Guzik // Maio 3, 2008 às 6:52 pm
muito bom, garoto. contundente. e daí a gente ri.
gi // Maio 6, 2008 às 9:52 am
não abandona não..