Culpa do Nêne

Abril 28, 2008 · 3 Comentários

Brecou o carro em cima da faixa.
Por pouco não passou por cima de uma senhorinha que atravessava.
Bufava.
Gomes estava com pressa. Atrasadíssimo para o primeiro encontro em muitos anos. Oito, na verdade, desde que sua senhora, Emília, morrera.
Quase uma década de luto. Emilia bateu as botas meio assim, de supetão. Estavam num daqueles portentosos almoços de domingo, a família toda reunida num italianão local. E Emilia engasgou-se com um “ossinho da sorte”. Tossiu uma, tossiu duas, e caiu dura, com a garganta atravancada e sem ao menos dar chance de Gomes bater na casa do doutor ou chamar uma ambulância.

Ficou desconcertado. E agora, oito anos e meio depois, resolvera dar uma nova chance para o amor.

Foi Nêne, o dono da esfiharia, que apresentou Inês. Tinha 61 anos, contra os 72 de Gomes. Moça de família, formada em administração, herdara do pai um açougue ali no centro. Gomes fazia portas sob medida. Tinha uma pequena serraria no quintal da casa onde cortava, lixava, parafusava e pintava as portas que encomendavam. Ele com mais dois ajudantes. Praticamente um Gepeto.
Nêne também estaria lá, assim como vários amigos em comum de Inês e Gomes. Nêne levou esfihas, tabule, kibe, babaganuch, coalhada seca, hommus. Gomes ficou encarregado dos engradados de cerveja. Inês cuidaria da sobremesa. O resto do pessoal, por volta de umas trinta pessoas, contribuiria com alguns trocados para as despesas gerais.

Gomes foi multado. Atropelou um gato e andou três quadras na contramão. Mas chegou ao encontro antes que Inês se enervasse e picasse a mula.

Nêne se adiantou e foi logo apresentando.

- Oi, tudo bem? Nêne é só elogios quanto a você, disse Gomes.

- Ele também fala maravilhas sobre as suas portas, disse Inês.

Um sorrisinho amarelo dele. Bochechas rosadas dela. Gomes já não sabia como agir naquelas circunstâncias.
Ficava meio sem palavras, sem assunto, só balbuciando um “é… ahãn… isso… é…”.

Papo vem, papo vai, uma cervejinha, um kibe cru, a relação dos dois começou a melhorar.

Inês já ria alto das histórias que Gomes contava ao pé do ouvido. Até que em certo momento, depois que ele falou umas três ou quatro frases, os dois foram para fora do barracão onde ocorria a confraternização.

Caminharam uns 200 metros através dos pinheiros e araucárias.Gomes tentou pegar na mão de Inês. Ela recusou. Mas sorriu e falou para continuarem andando.

Um pouco mais adiante sentaram num toco de árvore para recuperar o ar que a idade já lhes roubara. Gomes tentou novamente uma investida. Insucesso.

Falaram mais sobre a vida. Sobre os filhos, os netos, o trabalho.

Voltaram para o galpão.

Despediram-se. E nunca mais voltaram a se encontrar.

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