Gisele parou o Balcão. Balcão é um bar de velhotes – muitos deles inúteis, jornalistas e publicitários fracassados – em São Paulo. Ganhou o apelido de balzacão por causa da faixa etária de seus freqüentadores. E apesar dos inúteis, trata-se de um lugar bastante agradável. Até um original do Lichtenstein repousa, gigante, em uma das paredes.
Gisele parou o Balcão. Estudante de direito, debaixo do braço esquerdo equilibrava uma bolsa de couro sintético, o código penal e o romance novo do Kalhed Hosseini. Gostava de literatura. Ou fingia que gostava. Há meses o marcador não saía da página 78 do livro de Hosseini. E ela nem tinha tempo pra leitura, na verdade. Acordava cedo, de madrugada, lá pelas quatro, para dar tempo de chegar no trabalho antes das oito. Morava depois de Santo Amaro. E não tinha carro.
Era estagiária de um escritório de advocacia. À noite estudava direito. Mas hoje ela cabulou a aula.
Já passava das onze da noite quando Gisele entrou no Balcão. E atraiu boa parte dos olhares masculinos em sua direção.
Vestia uma calça jeans cintura baixa, meio manchada. A blusinha azul-turquesa superjusta deixava à mostra sua barriga. Cabelos longos, lisos. Pele morena do sol de Itanhaém, para onde ia com as amigas “sempre que dava”. Os olhos, de um verde infinito, contrastavam com os pequenos lábios (da boca). A boca, ah, a boca. Capítulo à parte. Ela emulava uma pequena concha semi-aberta. Um micro fresta se abria a cada palavra desfiada pela jovem.
Chegou acompanhada de um homem uns 20, 30 anos mais velho do que ela. Gisele não tinha mais do que 25. E ao seu lado o senhor de, no mínimo, 50 anos.
- Um chope, pediu ele.
- Eu também quero um, emendou ela.
- O.k. Dois chopes, por favor.
Os dois conversavam animadamente.
Gisele explicava o romance em progresso. Ou tentava explicar, afinal, não lera mais do que 70 e tantas páginas dele.
- Ele é muito bom, sabe.
- Sei…
- O cara tem uma coisa que nos prende, você não consegue mais parar de ler.
- Sei…
- É demais. Emocionante.
- Sei…
Qualquer que fosse o assunto, por mais relevante ou irrelevante que fosse, o velho iria responder com o vago “sei…”. Ele desejava a pequena Gisele como um prisioneiro de guerra desejaria um sanduíche de mortadela. Chegava a acumular uma saliva branca e gosmenta no canto da boca. De tanto em tanto, entre um gole e outro, aspirava a saliva fazendo um estranho barulho de sucção. Olhava fixamente para a boca e para o colo exposto de Gisele.
E ela não era boba. Sabia da situação. Seduzia com olhares, cruzadas de pernas e um movimento do rosto que revelava um par de atraentes covinhas. Balbuciava meia dúzia de palavras para, em seguida, sacar um gloss da bolsa e umidificar os pequenos lábios (da boca).
- Mais um chopinho, perguntou ele.
- Acho que não, pai, amanhã cedo tenho aula e a mamãe já ligou duas vezes.



3 respostas Até agora ↓
gisela // Abril 24, 2008 às 3:02 am
Ainda bem que você disse que eram pequenos lábios (da boca)!
rimoreno // Abril 24, 2008 às 3:24 pm
Não tive a chance de ver os outros, Gisela.
abs
R
Hida // Abril 29, 2008 às 7:01 am
Aonde tem um Lichtenstein de verdade??