Aeroporto

Abril 16, 2008 · Deixe um comentário

Elas passavam pra lá, passavam pra cá. No saguão do aeroporto, numa sexta à tarde, Gastão descobriu que era ali o melhor lugar para conseguir uma namorada. Ruivas, castanhas, morenas, loiras. Paulistanas, cariocas, gaúchas, mineiras. De botas, chinelos de dedo, salto agulha, tamancos. A variedade de senhoritas desacompanhadas num saguão de aeroporto é algo incomparável. Boa parte perfumada, frasqueiras à tiracolo, coques bem feitos ou cabelos condicionados.

Isso sem contabilizar a voz rouca, sexy, quando pornográfica, daquela que há décadas anuncia as chegadas e partidas das aeronaves na pista.

– Vôo 1741 com destino a Fortaleza, última chamada, portão 2.

– Que maravilha. Que maravilha, repetia, pra si mesmo, Gastão.

Devagarinho, jornal numa das mãos, a outra ocupada em apertar uma unha na outra, Gastão se aproxima de uma delas. Falta certa coragem.

– Humr, hummmr, gagueja.
– Por gentileza, é por aqui que as pessoas saem quando chegam?, dirije-se a uma jovem postada exatamente debaixo de uma placa escrita desembarque.

Gelo.

Nova tentativa.

– Me desculpe, senhorita.

– Sim, pois não.

– Me chamo Gastão. Qual a sua graça?

– Graça? Graça? Não vejo graça nenhuma.

– É, humm, é, me perdoe o incoveniente. Mas se por acaso, um estranho abordasse a senhorita num aeroporto cheio, véspera do final de semana, e lhe perguntasse o seu nome e telefone, a senhorita lhe daria tais informações?

– De forma alguma.

– Ufa, ainda bem que não perguntei. Até logo.

– Cada um que me aparece, pensou Inês com seus botões.

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