Não era de hoje que Dudu nutria uma raiva quas inexplicável. A raiva vinha desde pequeno. Filho menor de uma família de três irmãos, Dudu tinha objeções até contra as atitudes da mãe. Desde que a família comprara um enorme cão da raça fila para proteger o sobrado em que morava, Dudu não podia mais sair de casa. Era ele se aproximar do portão para a dona Dileuza gritar lá da cozinha: não abre, Eduardo, não abre que a Tainá Cristina vai fugir (sim, o cão, na verdade uma cadela, recebera o delicado nome de Tainá Cristina). E assim passou parte da infância, vendo a vida acontecer do lado de lá das grades sem poder fazer nada.
Foi quando a mãe arrumou um emprego na prefeitura, Dudu então com 8 anos, que ela precisou de alguém para cuidar do moleque durante as tardes. Linda chegava às oito e saía por volta das sete da noite. E o melhor: Linda tinha um casal de filhos, Alan, de 6 anos, e Jade, da mesma idade de Dudu. As tardes perdidas do lado de cá do portão voltaram a ser animadas. Pulavam corda. Fazia esculturas em durepox. E brincavam com uma invejável coleção de Playmobil que Dudu herdara dos irmãos mais velhos – e que aumentava ainda mais a cada natal.
Tinha uma caixona recheada de bonecos, acessórios, castelos, mansões e até uma montanha que servia de cenário para a fictícia cidade de Playmocity (nome dado por eles mesmo!). Mas com o passar dos meses ele se deu conta que a sua coleção havia diminuído. E foi a mãe que fez cair a ficha: os filhos de Linda estavam levando embora, pouco a pouco, a preciosa coleção do filho. Mas sem poder acusar Alan e Jade dos pequenos furtos que cometiam diariamente, teve que esperar até conseguir achar motivo para mandar Linda embora. E quando descobriu que ela pegava escondido os vestidos de gala de Dileuza e na semana seguinte mostrava à patroa fotos do casamento da irmã, do batizado do filho da vizinha, ou do churrasco da paróquia, sempre com os vestidos “emprestados”, Dileuza viu que era hora de demitir Linda.
Apesar de tudo, Dudu ficou triste. Suas tardes voltaram a ser solitárias. Mas o tempo passou, Dudu cresceu, e virou um rapaz até que normalzinho. Mas aquela raiva da infância ainda não havia sumido – pelo contrário, estava muito viva sempre que lembrava dos filhos de Linda. Ficou feliz em saber que Jade havia engravidado aos 12 anos, de um vagabundo qualquer, e que criava a criança na maior dificuldade lá no sertão, próximo à Serra da Viração. Torceu-se de tanto rir quando descobriu que Alan virou pintor de quadros de motel. Um mais feio que o outro. Linda, coitada, morrera a pauladas pelo ex-marido, sempre chegado numa cachaça e num fumo.
Dudu está com 26 anos. Formou-se em técnica de informática e trabalha num cybercafé ali na pracinha. Ainda mora com a mãe. Nas horas vagas, tenta se livrar do que sobrou da sua coleção de Playmobil vendendo-a no Mercado Livre. Não consegue. Até pensa em deixá-los na porta da casa de Jade. Ela ficou com mais da metade da coleção. E ele precisa de dinheiro pra comprar um mouse sem fio.



1 resposta Até agora ↓
missLucky // Abril 21, 2008 às 1:06 am
dudu merecia uma carreira mais brilhante…