Umbigo

Abril 10, 2008 · Deixe um comentário

Assim não vai dar, guri. Escolhe: ou você se concentra na bola ou você se concentra no seu umbigo. Estamos perdendo por três gols e falta apenas 10 minutos pro jogo acabar. Pára de olhar para baixo e presta atenção nessa bola, porra.

Não adiantava. Sérgio, o guri em questão, tava um com um problemão daqueles. Encasquetou que seu umbigo ia abrir e desde então, cerca de umas três semanas pra cá, a única coisa que fazia era olhar para o tal buraco. Cutucava. Mexia. Molhava o dedo de saliva e massageava o orifício. Apertava. Enfim, tentava achar algum sinal de que o nó, dado 9 anos atrás pelo Doutor Torres numa maternidade de Jundiaí, no interior de São Paulo, ia estourar de vez. E como prevenir tal tragédia?

Serginho tinha uma imaginação de fazer inveja. Criativa teorias incríveis de como o desastre ocorreria: Vou virar do avesso? Vou esvaziar até morrer? Vou voar pelos ares como quando se solta uma bexiga sem dar um nó bem dado? Será que vai sair sangue ou coco? Vou apanhar da mãe se chegar em casa todo sujo.

O jogo acabou e seu time perdeu por 4 a 2. Levou esporro dos amigos mas nem ligou. E tampouco dividiu aquela angustia com eles. Ninguém vai entender mesmo, pensou. E seguiu no caminho de volta pra casa vasculhando com o dedo indicador algum sinal de perigo iminente. Doía. Mas doía, é claro, de tanto o moleque cutucar. Já começava, inclusive, a fazer um feridinha. Desesperou. Apressou o passo, ansioso por chegar logo em casa e, finalmente, contar pra mãe a tragédia anunciada. Andava rápido ao mesmo tempo que seguia fuçando – com os olhos e o dedo – o próprio umbigo.

Atravessou a rua distraído e foi pego em cheio por uma caminhão da Sadia. Morreu na hora. Com metade do indicador esquerdo cravado dentro dele mesmo.

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