Chumbinho

Abril 7, 2008 · Deixe um comentário

— Ele não está bem — dizia a mãe.

— Que absurdo — reprovava o pai.

O fato é que Rubinho, menino franzino, quase esquelético, não estava bem.

Desde o dia em que viu Debora passar do outro lado da rua, saltinhos curtos, e o pior, de mãos dada com um Fulano, o moleque adoeceu. Meteu-se na cama e de lá não saía para nada. Não havia santo remédio que o fizesse levantar.

— Absurdo — repetia o pai.

— Ele não está bem — insistia a mãe, já bastante nervosa.

Foi-se uma semana, duas, um mês. E o rapaz seguia firme em sua greve de vida. Tamborilava os dedos na testa a fim de descobrir, ele próprio, uma saída para aquele sofrimento.

Até padre chamaram. Não houve jeito. Mas foi no trigésimo primeiro dia, de uma hora para outra, que de um salto o garoto deixou a cama e correu para rua.

— Graças a Deus — sussurava a mãe, olhando para o teto ao mesmo tempo em que acendia nova vela.

— Eu disse, eu disse, não era nada, um absurdo.

Um quarteirão adiante, em frente à casa de Debora, Rubinho pensou mais uma vez se realmente deveria fazer aquilo que amadurecera durante a reclusão. Recuou dois passos, dedos na testa, e decidiu entrar no prédio.

Passos curtos, respiração contida, foi em direção à porta. Enxugou as mãos na calça de brim e meteu o dedo na campainha. Tocou uma. Duas. Cinco vezes. Não havia ninguém. Ouviu apenas o mio discreto do bichano que ela cuidava. Do bolso sacou duas bolinhas cor de chumbo. Novamente recuou, piscou demoradamente, e por pouco não mudou de idéia. O vão estreito da porta não permitiu a passagem das tais bolinhas. Molhou os dedos com a saliva e tentou empurrá-las. Não passavam. Num rompante, decidiu ele mesmo engoli-las.

Ficou ali durante três dias, até que o feriado de Finados terminasse. Do outro lado o gato miava.

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